Cuiabá Antiga

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    Cuiabá tem história. Caminhando para 300 anos de existência, a Capital de Mato Grosso teve um passado de muitas lutas e dificuldades em face ao seu isolamento dos grandes centros. A cidade teve um supercrescimento, na época de sua fundação, quando, a abundância de ouro - descoberta dos bandeirantes - provocou uma corrida para a província de Mato Grosso. Milhares de pessoas de todos os estados fincaram bandeira neste solo. 
     O ouro foi acabando e muita gente abandonou a terra. Entretanto, houve aqueles que decidiram enfrentar o desafio de ficar e  construir uma civilização. Até meados dos anos 70, a já Capital Mato-grossense ainda vivia um ciclo de vida feliz com seu povo pacato, quase sem nenhuma influência. 
     "Andávamos de charrete com a maior tranqüilidade no centro. Todos se conheciam e a tranquilidade era tanta que dormíamos com as janelas abertas. A polícia era figurativa e não precisava trabalhar. Não existia insegurança, não havia inflação, ninguém sabia o que era desemprego. Brincávamos de roda, quando crianças e dormíamos cedo. Preocupação mesmo somente com animais e emergência em caso de doença. "ás vezes havia a necessidade de deslocar até grandes centros para tratamento", relatou a Dona Maria Boaventura, uma cuiabana nata de 67 anos. "Hoje estamos em outro mundo, com problemas de insegurança, trânsito caótico e desemprego", a lamenta.
     A comunidade cuiabana, quase que totalmente fixa neste território criou seus próprios hábitos e sotaques, mas mantém o espírito de cidade hospitaleira e muito tentadora para os visitantes.

 

 

Antes de tudo... 

     O historiador Lenine Póvoas conta que a his
tória dos espanhóis em Mato Grosso é muito mais antiga do que se pensa. Eles chegaram ao Estado muito antes dos bandeirantes, frisa. Passaram por estas terras pelo menos 200 anos antes deles - logo após o descobrimento do Brasil -, pelos rios da região e estiveram nas proximidades de Corumbá, onde hoje fica Mato Grosso do Sul.
     O primeiro europeu a pisar em solo mato-grossense foi justamente um espanhol, o explorador Aleixo Garcia, em 1525. Através do rio Paraguai, ele chegou a morraria de Albuquerque, nas proximidades de onde está hoje a cidade de Corumbá. Seria um dos últimos lugares por onde passaria. De lá seguiu para outras viagens de exploração, tendo encontrado muito ouro e prata. Sabe-se que foi achado morto, no mesmo ano, pelos índios da vizinhança de onde fica a cidade de San Pedro, entre Assuncion e Concepción, no Paraguai.
     Depois de Garcia, vários outros exploradores chegaram à região. O historiador e professor Fernando Souza Santos também relata visitas de espanhóis à região na mesma época. Apesar dos portugueses terem sido oficialmente os colonizadores do País, eles foram os primeiros a pisar em terras brasileiras, afirma. Segundo ele, o espanhol Nuñez Cabeza de Vaca, acompanhado de outros expedicionários, também "visitou" o Brasil no início século XVI chegando até a região conhecida hoje como Pantanal.
     Todavia, os espanhóis acabaram perdendo a posse da terra para Portugal e com isso sua influência em certas regiões do Brasil foi enfraquecida. Um exemplo claro, conforme os historiadores, é Mato Grosso, principalmente Cuiabá. Nesta parte do Estado, as tradições espanholas praticamente não foram incorporadas e conservadas pela população. "A colonização da Espanha foi importante no aspecto político. Não há muitos registros que falem em outros tipos de influência, como por exemplo, cultural. Porém, o linguajar cuiabano carrega alguns traços do espanhol", esclarece Santos.
     Historicamente, existe explicação lógica para a falta de contato entre locais colonizados por Portugal e Espanha: os dois países não eram parceiros comerciais. Além disso, disputavam o controle dos territórios descobertos na América do Sul. Conforme Santos, a rivalidade entre os povos barrou a miscigenação. A briga por espaço territorial era tanta, que os portugueses chegaram transferir, em 1752, a capital de Mato Grosso para Vila Bela da Santíssima Trindade (sudoeste do Estado). A ação visou consolidar a posse portuguesa no Vale do Guaporé, divisa com a Bolívia.
     Mesmo com a rixa, os espanhóis conseguiram inserir sua marca em Mato Grosso nas regiões de fronteira. A partir do século XVIII ocorreu uma explosão demográfica em Cuiabá, mas as atividades auríferas que sustentavam a economia local começaram a entrar em declínio. Por isso, os mato-grossenses foram "forçados" a comercializar com a Bolívia, formando rotas de contrabando de metais como a prata, abundante neste país. "Naquela época, uma colônia poderia manter ligações econômicas somente com sua metrópole. Isso explica a ilegalidade", relata.
     Com as idas e vindas, os espanhóis e portugueses acabavam se misturando e trocando costumes. "A miscigenação é comum em região de fronteira. Nestes lugares as pessoas são, na maioria das vezes, bilíngües e até trilingües", argumenta o genealogista Adauto Dias Botelho. Apesar da mistura de línguas nas divisas de estado, o complementa, a penetração espanhola não deixou muitos frutos para Mato Grosso como um todo. Uma prova disso, é que nenhuma localidade mato-grossense tem o espanhol como segundo dialeto.

     Passados alguns séculos, os espanhóis empreenderam uma nova visita à América, desta vez atrás da paz e da prosperidade que lhes faltava em seu país. De acordo com as representantes legais do Consulado Honorário da Espanha em Mato Grosso, Esther e Elisea Drosghic Mendoza, uma boa parte dos que vieram para morar no Brasil chegaram na década de 30. Eles fugiam, primeiro da Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939), depois da Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945).
     Inicialmente, rumaram para o Sudeste, depois para o Sul e o Centro-Oeste do país. Somente nas décadas de 40 e 50 começaram a chegar de fato a Mato Grosso. Eram famílias numerosas, geralmente com muitos jovens procurando uma vida melhor na América do Sul. Os que rumaram para o interior do Estado se dedicaram à agricultura. Já os que ficaram nas grandes cidades partiram para o comércio, como restaurantes, bares, ou para o ramo de serviços, como hotelaria e turismo em geral, as lembram.
     Essa propensão ao turismo, explica Elisea, pode ser verificado em todos os lugares para onde o espanhol migraram. O que, por sua vez, deve ter relação com o fato da Espanha ser hoje o segundo destino mais procurado do mundo - o primeiro é a França. Algumas das maiores cadeias de hotéis e agências de turismo são de espanhóis ou de seus descendentes, citam as representantes.
     A culinária típica não fica atrás. As irmãs lembram que um dos pratos mais representativos da Espanha, a paella, já faz parte do cardápio dos restaurantes de Mato Grosso e do Brasil. Engrossam a lista ainda a bacalhoada à espanhola e a caldeirada de mariscos. Também é fácil encontrar nos supermercados os famosos vinhos produzidos na região de La Rioja, na Espanha.

 

Cuiabá - a origem e crescimento

     O Município de Cuiabá foi o primeiro criado em MT, de Cuiabá, derivam todos os municípios que compõe hoje os estados de MT, MS e RO. Nesse território, viviam primeiramente tribos indígenas. 
     A primeira notícia que se tem sobre o território atual de Cuiabá remonta aos anos de 1670-1673. O paulista Manoel de Campos Bicudo subiu o rio Cuiabá até confrontar-se com o Morro da Canastra hoje denominado Morro DE São Jerônimo, situado no município de Chapada dos Guimarães. Campos Bicudos venceu os contrafortes do Morro da Canastra, atingiu o rio que mais tarde seria denominado das Mortes e por ele desceu, em busca das famosas minas dos Martírios. Estas minas, não passavam de lendas criadas pela imaginação fértil de ousados sertanistas, por muitos se procurar e nunca o encontrar, os paulistas foram se voltando ao sertão e criando roteiros para as minas dos Martírios. 
     As informações desencontradas de nomes e posições geográficas dos roteiros foram confundindo mais e mais as informações sobre o lugar das Minas. O ponto de referência mais à oeste em Mato Grosso, para se encontrar as Minas dos Martírios foi Diamantino, com uma exploração do Padre Francisco de Sá Lopes, em 1820. 
     O segundo nome da história já nos tempos da escrita em Mato Grosso é o de Antônio Pires de Campos, filho de Manoel de Campos Bicudo. Em 1718 subiu o rio Cuiabá e na região da Barra do rio Coxipó, encontrou Índios do Povo Boróro. Aprisionou indígenas de uma aldeia e botou fogo no que sobrou da caçada de índios. Na verdade, Pires de Campos que procurava as Minas dos Martírios, contentou-se com a preia. Antônio Pires de Campos levava uma grande quantidade de índios, Cuiabá abaixo, quando, no Bananal, encontrou-se com a bandeira de Pascoal Moreira Cabral. Mostrou os índios preados e indicou a região da catada: o rio Cuiabá na altura do Coxipó. Pascoal não demorou e se botou rio Cuiabá acima em busca de índios. O intento era prear índios e levá-los a São Paulo. 
     Ao chegar, verificou o lugar dos destroços da aldeia e subiu o rio Coxipó em buscas de mais índios, chegou até as proximidades do rio Mutuca – foi mal sucedido – "perdeu oito brancos, sem contar os negros". Pascoal decidiu voltar a barra do rio Coxipó, acampar, fortificar-se e esperar reforço para voltar e continuar à luta e a prea de índios. Devido ao acampamento, originou-se o primeiro Arraial, próximo ao lugar denominado São Gonçalo Velho, pouco abaixo da barra do Coxipó. Tudo indica que Pascoal confidenciou a primeira roça, pois era costume dos paulistas plantar, onde acampasse assegurando a alimentação nas percorridas pelo sertão. 

     Não queriam os paulistas apenas prear índios interessava-lhes também pedras preciosas. Um dos companheiros de Cabral encontrou ouro, não se conhece os pormenores do achado. Pascoal Moreira Cabral, descontente com a brusca transformação de seus companheiros, de predadores de índios a garimpeiros, admoestou-os, pois abandonavam as roças e se dedicavam à extração do vil metal. Ouro a que não davam a menor importância, dizendo que a riqueza de São Paulo era os índios. Ocorria com a chegada dos paulistas no território de atual estado de Mato Grosso, uma rachadura ao meio do território do povo boróro. Outros grupos de paulistas foram chegando, subindo o rio Cuiabá e igualmente foram se dedicando a extração do ouro. 
     Em conseqüência, os paulistas abandonaram os arraias primitivos e foram se agrupando em Forquilha – na confluência do rio Mutuca com o Coxipó – em Forquilha, levantaram a primeira igreja sob a invocação da Penha da França, celebrando a primeira missa o padre Jerônimo Botelho. Monções tinham chegando à região garimpeira, dedicando-se a extração de ouro, Fernão Dias Falcão, assumiu o comando do arraial, por ato de 20 de Novembro de 1720.

      Entre os aventureiros paulistas a história marcou os atos de Miguel Sutil. Subindo o rio Cuiabá, chegou até a embocadura do Córrego Prainha, ali arranchando e tocando roça juntamente com João Francisco Barbado. 
      Certo dia de Outubro de 1722, Sutil mandou os índios buscar mel silvestre, escoou-se o dia, temendo Sutil a fuga dos índios. Já muito tarde, chegaram sem mel, Sutil então interrogou porque a demora e a razão de não trazerem mel. Em resposta, os índios mostraram-lhe os primeiros granetes de ouro recolhidos no local que mais tarde seria denominado "Lavras do Sutil", nas proximidades da atual igreja de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, onde edificaria Cuiabá. Não demorou, esvaziou-se Forquilha, atrás do ouro encontrado em Cuiabá por Miguel Sutil. 
     Em 1727, pelo menos 2.607 escravos foram registrados em Cuiabá, exigindo do comércio monçoeiro a superação dos perigos da navegação dos rios para trazer alimentos, assim como vencer a raiva dos índios que eram contra o modo de preis usados pelos paulistas. Mas o garimpo, principalmente o de baixa rentabilidade, não seria capaz de acompanhar o desenvolvimento da região. Mais preocupado com o avanço pelas terras espanholas estava o governo português. A Coroa de Portugal se empenhou em estabilizar a vida em território de conquista. 
     Uma Provisão Régia de 1723 elevava Cuiabá a distrito, A 27 de Abril de 1724, a Capitania de São Paulo modificou a estrutura da administração das minas de Cuiabá, a fim de organizar perfeitamente a vida em terra de conquista. João Antunes Maciel foi nomeado Superintendente Geral das Minas e Fernão Dias elegido Capitão-Mór-Regente. Cuiabá passa a ter uma justiça aprimorada, livre dos razões pessoais. Começavam os arranjos de uma tomada de posse efetiva, sob os olhares atentos da Coroa de Portugal e com estrutura de governo de assenhoramento de práticas eram tomadas pela câmara, o presidente da câmara tinha no poder judiciário a terra. 
     Por fim o estabelecimento do município, com autonomia do governo. Obedecendo as ordens régias, o Governador de São Paulo, Dom Rodrigues Cezar de Menezes, partiu de São Paulo, a 06 de julho de 1726, a fim de instalar o município de Cuiabá. O Governador viajou com 3.000 pessoas em 23 canoas de 60 arrobas (15kg cada arroba) cada uma, reservadas para o transporte de carga de gêneros da terra e do reino, somando ao todo 308 unidades. Era como se fosse uma pequena vila em viagem. 
     Toda a despesa, corria por conta do ouro cuiabano. A 15 de novembro chegaram ao porto de geral de Cuiabá. A 1º de janeiro de 1727, o governo de São Paulo instalou a vila, começava efetivamente a vida de todo território, depois denominado Capitania de Mato Grosso. Os limites não estavam todos determinados, pois se tratava de terra ainda em fase de conquista. Mas em linhas gerais, tinha por limite a leste, os rios Paraná e Araguaia, por limite norte do Grão – Pará e os demais limites ainda por se determinar. Cuiabá apesar de nascer depois de 200 anos de vida colonial, ainda participou de forma antiga de estrutura municipal. 
     O poder executivo não gozava da proeminência atual, pois apenas era representado por um produtor. As decisões chefe nato, por isso a prefeitura era também chamada de ouvidoria, 03 eram as preocupações da câmara: a organização da vida do povo, a abertura do caminho para Goiás e a guerra contra os índios, principalmente dos povos Guaykuru e Payaguá, pois problematizavam a navegação dos rios Cuiabá e Paraguai. 
     Pela nova estrada de Goiás, transitou a primeira boiada em Setembro de 1737, a nova estrada provou reduzir os prejuízos resultantes da demorosa navegação pelo Paraguai e Tietê. Essa via dava acesso mais direto ao Rio de Janeiro e Bahia, mas a vida de garimpo sempre esteve sujeita a mudanças bruscas e contigentes urbanos. Cuiabá teve de pagar esse tributo, o que causou o desenvolvimento de Cuiabá foi um conjunto de circunstâncias. 
Ao mesmo tempo a estabilização do comércio após as pazes dos povos Payaguá e Guaykurú, por volta de 1775, a posição central de Cuiabá no transito da capitania, a diminuição de importância de Vila Bela, após o estabelecimento mais estabilizado da fronteira, assegurado pelo desaparecimento de animosidades entre espanhóis e portugueses por meios de contrabando mútuo, de ouro, pelos portugueses e de prata pelos espanhóis. 
     Em 1823, por decisão do imperador Dom Pedro I, Cuiabá tronou-se capital da província, em deterimento de Vila Bela. O que consagrou a hegemonia de Cuiabá, com relação a todas as cidades e vilas, foi à abertura do rio Paraguai ao comércio internacional, ocorrida pelo tratado de abertura dos portos com o Paraguai, a seis de abril de 1856. Se Cuiabá já era a capital da província de Mato Grosso e centralizava em si um poder proeminente, o seu comércio com exterior assentou definitivamente o poderio econômico avassalador, aliado ao período político de capital. 
     Cuiabá sofreu as conseqüências da guerra do Paraguai, se bem que as forças paraguaias não chegassem a ameaçar seriamente a cidade, pois as garantias de defesas circunstâncias impediam a chegada da enquadra inimiga. A varíola, também denominada bexiga, causou pesada baixa na população cuiabana, assim como em toda a província. A organização da vida municipal obedecia ao regime dos coronéis. Cuiabá zelava fortemente pelo domínio de toda província por via política. 
     Cada uma das cidades ou vilas obedecia cegamente aos ditames da política central regional, devido as grandes distâncias, Cuiabá sofreu muito pouco as conseqüências da revolução industrial iniciadas no século XIX. Portanto, no decorrer de longo período de sua existência a capital mato-grossense experimentou pouquíssimas transformações econômicas e sócias, o que veio refletir também nas poucas mudanças de seu sítio urbano. Somente a partir da década de 1920, com os melhoramentos do sistema de transporte rodoviário, Cuiabá passou a viver uma fase desenvolvimentista, fase está incrementada após a década de 50, com a implementação da política federal de ocupação do Centro Oeste brasileiro, da qual fez parte à própria política de colonização adotada pelo governo do estado, sendo que a partir de 1960, a ocupação de Cuiabá se processou de forma mais acelerada. 
     Pode-se se dizer que o estabelecimento da frente agrária perturbou o domínio do capital cuiabano em favor do capital de for a, tanto e outros estados como o do estrangeiro. Cuiabá se encontra no início d
a carreira industrial propriamente dita, numa estrutura brasileira de capitalismo, mais se beneficia da estrutura governamental estadual, pois nesta se alicerçam os projetos de desenvolvimento além do que se reafirma com centro comercial e de serviços, a fim de atender a crescente demanda de todos do estado de Mato Grosso.
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